domingo, 4 de março de 2012

Você acredita em destino?

 Foi a pergunta que aquela senhora me fez. Confesso que eu estava meio (muito, na verdade) aborrecida com aquele falatório. Parecia que o metrô não se movia e que o ponto onde eu deveria sair estava cada vez mais longe. Ignorei, sem nem imaginar que a indagação fora feita a mim. Olhei para o lado e vi uma mulher nem jovem e nem velha, de pele morena clara. A cabeça estava coberta por um lenço estampado. Tentei imaginar a cor de seu cabelo, se tivesse algum. Tinha os olhos vidrados em mim, como quem esperava uma resposta. Engoli em seco e concordei sem graça, apenas balançando a cabeça. Era só o que ela precisava para relatar o motivo da pergunta. Disse-me que havia duas semanas que fora curada de câncer. Seu estado era crítico e os médicos não dava muito mais que alguns dias. Ficou arrasada, mas o que importava era ver o nascimento do neto. A filha engravidara na adolescência, e seria lastimável se a mãe morresse justo naquele momento. Àquela altura, os passageiros me olhavam como se eu fosse louca em dar ouvidos a baboseiras. Curiosa, não me importei com os olhares. – Pois acredita que eu vivi o suficiente para ver o meu menino nascer? Uma semana depois! – Exclamou, orgulhosa de si. Seu semblante contradizia o tom de voz. Parecia frustrada, além de tudo. Eu a ouvia atentamente, imaginando onde queria chegar. Eu já estava cheia dos problemas, e não precisava ouvir mais aqueles. Isso pensei, claro. Indelicadeza não é o meu forte. – Aí eu soube que tinha sido curada. Corri para a minha filha e meu neto, contar a boa nova. Tudo isso pra saber que havia tido complicações no parto e só havia sobrevivido o João Gabriel. – Falou naquele tom amargurado. Supus que aquele fosse o neto da senhora. Até olhei ao redor, só pra ter a certeza de que aquilo não era uma pegadinha. Se eu contasse, ninguém acreditaria. Pois ao olhar para o vagão, vi muitos como eu, meio sem reação. Um silêncio terrível, todos prestando a atenção naquela prosa. Quis me enfiar num buraco e praguejei por minha estação ser tão longe. – Eu também acredito em destino. Vivi por uma razão: cuidar do meu João. A vida de minha filha pela minha. – Balançou a cabeça e riu. Minha língua coçou e eu tive que intervir. – Mas isso não é destino. Chama-se propósito, e não do acaso. Acredito que exista um Deus… – E parei por ali mesmo, pois a atenção toda se voltara pra mim. A mulher me olhou do jeito “pedi sua opinião?”. Calou-se. Nem me revoltei. Pelo contrário, senti pena. O que faria uma senhora desabafar sua história para um bando de pessoas que nunca vira? Então lembrei que a solidão tira a pessoa do seu estado natural. O vagão parou e a mulher do metrô anunciou a minha estação. Saí o mais rápido que pude, sem sequer me despedir da mulher. Fui o percurso todo pensando. No final, aquela senhora e eu tínhamos algo em comum. Não, eu não tive câncer e meu drama não é um terço do que o daquela mulher. Mas no final das contas, ambas precisamos de mudança. O que necessitamos, é um sopro de vida.

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