sábado, 3 de março de 2012

Um conto (não tão) bobo

                Tudo começou de modo singelo numa tarde ensolarada ao final de setembro. A primavera chegara; estação dos sonhadores. Com ela, a esperança de que tudo seria doce, pelo menos enquanto desabrochassem as flores. Lá fora, poucos pensavam assim. Uma, em especial, deixara de acreditar na magia das estações. Voltava para casa ao final do dia, perdida em meio à multidão que lotava as ruas. Cansados e famintos, ansiavam chegar em suas casas para passar o final da noite com as famílias. Veronika, apesar do cansaço - físico e emocional -, tinha aquele desejo íntimo de se perder pelo caminho. E acima de tudo, que não a achassem. Por ora, perdia-se em pensamentos ali, sentada no banco do metrô que tomava passageiros aos poucos. Gostava de fechar os olhos e imaginar como seria o seu futuro. Mas naquele momento, imaginou como seria quando simplesmente parasse de respirar.
                 Viu uma mulher baixinha, robusta e pele alva. O cabelo batia até a nuca, era liso escorrido e castanho escuro que mais parecia preto. Seus olhos eram gentis e ganhavam a todos. Tinha a face rosada quase sempre, às vezes era o calor daquela cozinha, outras apenas a timidez. Porém, quando Veronika a viu, quase não pôde reconhecer. Os olhos da mulher transbordavam tristeza. Segurava uma toalhinha com alguns escritos. “Feliz dia das Mães”, eram as palavras bordadas em um rosa clarinho. Suas lágrimas eram secadas por aquele pedacinho de pano a que tanto se apegara. Não havia cor em seu rosto. Não estava sozinha, afinal. Veronika reconheceu as outras figuras. Seu João, o padeiro a quem sempre cumprimentava quando saía para trabalhar. Era rústico e meio assustador. Pobre coitado, tinha a vida infernizada pelas crianças da rua que nada sabiam fazer a não ser chateá-lo. Pela primeira vez, seus traços não compunham uma feição enraivecida. Estava apenas desapontado, talvez angustiado, até. Dona Tereza também estava ali, segurando a mão da mulher com a toalhinha. Dona Tereza era um amor de pessoa. Morava na menor casa do bairro. Mas tinha algo que era raro de se ver ali: possuía um coração enorme. O destino não lhe permitiu ter filhos, mas cuidava de outras crianças como se fossem dela. Sabia fazer o melhor bolo de chocolate que Veronika um dia experimentou. Trabalhava como lavadeira, e mesmo com o corpo magro e aparentemente frágil, tinha uma força incomum. Carregava aquelas bacias repletas de roupas sujas. Vez ou outra, a pequena Veronika a seguia até o rio. Uma fazendo companhia à outra. Uma vez, a menina quase se afogou, dando um susto sem tamanho em Dona Tereza. Quase que as duas partiam juntas, uma afogada e a outra com um ataque cardíaco. Não havia mais de vinte pessoas no local que Veronika via, mas as que estavam ali, conhecia nem que fosse de vista. Assustou-se até. Percebeu então que tanta gente se importaria caso ela sumisse. Até mesmo o Zézinho, o menino jornaleiro que não se cansava de jogar charme para tentar impressioná-la. Todos ali reunidos por uma só pessoa. Ou a ausência de tal.
                Abriu os olhos e quase passou da estação em que sairia. Andou pouco até chegar em casa. Desde pequena, a casinha continuava a mesma. Ou quase. A tintura branca tomou uma cor amarelada, e o azul das janelas estava desbotando. Sorriu ao ver uma mulher robusta e baixinha. Estava sentada à soleira da porta, tricotando algo. Ergueu a cabeça e sorriu ao ver a filha. Os olhos bondosos como sempre. Levantou-se com dificuldade e abriu a porta para ambas entrarem.
                — Como foi o seu dia, minha menina?
                 “Cansativo. Quase perdi meu emprego por falta de atenção, mas o restante foi bem normal. Nada de diferente a não ser pensar pela primeira vez na importância que tenho. Pensei em você e em como ficaria arrasada se algo me acontecesse. Vi desde o seu João a D. Tereza, e eu nunca percebi o quão afáveis todos são. Saí do trabalho querendo morrer, mas voltei mais forte do que eu pude esperar. Perdi a vontade. Pra que? Quero viver!” Era o que queria falar. Todavia, apenas sorriu e abraçou a mãe.
                — Foi ótimo!

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