“O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa, despedaçada.”
Meu nome é Francisco.
Meu nome é Francisco, mas me chamam de Chico.
Sou casado há um ano, resido no estado do Rio de Janeiro, mas sou mineiro de nascença e estou no auge dos meus trinta anos; formado em Direito, trabalho na Prefeitura, onde entro às sete da manhã e saio às seis da tarde. Gosto de batatas e piano. Costumava tocar em concertos antes de conhecer Linda.
Linda é a minha atual esposa.
Ela tem os cabelos crespos e armados. Tem também os olhos escuros, já diria Vinicius, como besourinhos do céu. Tem a pele cor de chocolate, a minha mulata. Os lábios… Os lábios dela são como portais celestiais. É bonita a danada, mas tem um defeito: não me ama.
Conheci-a em uma situação engraçada. Estava eu entrando em um estabelecimento no qual havia marcado um encontro com a minha, na época, noiva, quando ouço ligeiramente uma discussão:
_ Minha senhora, eu não posso abater ainda mais o preço deste livro.
_ Senhora está no céu, minha filha… Na prateleira ‘tava falando dez reais, então é esse o preço que eu vou pagar nesse livro.
_ Deve ter havido algum engano, senhorita. Agradecemos o aviso, olharemos e consertaremos, mas não posso diminuir o preço.
_ Olha aqui…
_ Eu pago a diferença.
E foi com essa última frase que ganhei minha primeira bofetada no rosto e um tiro no coração.
Após o acontecimento, não havia visto mais a moça, apesar de persistir em ir todos os dias naquele café, mas lembrava-me de como os lábios dela se moviam… Lembrava perfeitamente, tão perfeitamente que, por vezes, praguejava a minha total falta de sanidade, a qual levou às ruínas o meu noivado e levou-me também a abrir uma investigação acerca da moça.
Depois de dois dias, soube que o nome dela era Linda da Silva, que morava na entrada de uma favela com os tios, trabalhava como cozinheira de uma creche, que tinha vinte e dois anos e o principal: era solteira. Sem mais esforços, descobri que freqüentava as rodas de samba da Mangueira. Perceba, caro leitor, eu, rapaz letrado, advogando, da mais alta classe da sociedade carioca, solteiro, e – por que não falar? – um dos jovens mais cobiçados atualmente, aprendeu todas as letras de samba que o mestre-alguma-coisa tocava… Eu aprendi samba, e ela aprendeu a me gostar.
Não fora muito dificultoso travar com Linda uma grande amizade. Logo na primeira semana, três tentativas frustradas de uma aproximação labial. No primeiro mês, garantiu-me um abraço nas vésperas de Natal. No ano novo, ganhei um beijo no rosto e um potinho com doces de amora e, enfim, no quinto mês, beijou-me os lábios e disse que me amava. Casamos três dias depois.
Olhar para o início do nosso casamento é o mesmo que recordar os sonhos mais remotos da adolescência. Lembro-me com intensidade cada detalhe, cada toque, cada sorriso, cada manha, cada discussão… O nosso amor, em sua fase inicial, levantou muita discussão sobre a tensão entre a emoção e a razão. E dessas discussões, surgiram mágoas, e dessas mágoas, perdi minha esposa e ganhei uma mulher amarga dentro de casa.
O amor está ligado ao dia-a-dia, às coisas simples e essenciais que fazem bem à existência humana e, em especial à relação a dois. Um beijo de boa noite, o inclinar-se no leito do amado enfermo, as refeições tomadas em conjunto, o orçamento compartilhado em meio aos sonhos para o futuro… Isso tudo pode traduzir o amor diário, e foi aí que pecamos: deixamos nos abater pela rotina. Nossa convivência ficou pacífica, polida, fadada ao fracasso e ao caos. Não éramos mais apaixonados, perdemos o encanto um para com o outro e isso doía-nos e ainda nos dói… Ouço todos os dias milhares de palpites acerca do meu casamento, aonde as pessoas me dizem que “um amor cura outro amor”, todavia não é isso que quero para mim, para nós.
Decepcionei minha esposa, desgastei os sentimentos da mulher que amo a ponto de deixá-la traumatizada e desacreditada no amor. Hoje ela duvida de mim, de todos e dela mesma, fecha-se em um casulo. Ela perdeu o entusiasmo na nossa caminhada e não está disposta a tolerá-la até o fim, mas não me permito deixar.
Amo-a. Amo a minha Linda. Amo minha esposa. Amo minha namorada e não vou desistir de nós.
A grande ilusão do meu casamento ocorreu quando, à beirada do final trágico, eu disse que estava tudo bem. Na verdade, eu sou um grande filho da puta, perdoe-me, leitores, mas é desse jeito que me vejo. Tantas coisas boas poderiam ter acontecido se eu tivesse aberto para a possibilidade do melhor, ou seja, para coisas necessárias que faziam falta. Eu precisava ter admitido que as coisas não estavam bem, e mais do que isso, deveria ter me disposto para fazer alguma coisa vital a fim de mudar a situação. Temos, todos nós, a tendência de minimizar os problemas dos outros e super-valorizar os nossos. Repito: filho da puta! Reclamei durante meses a falta que os lábios dela me faziam, mas nunca, até então, tinha parado pra pensar que ela também deveria sentir falta dos meus e que, se fosse menos egoísta, deveria ter ido beijá-la, e ainda que ela dissesse não, corteja-la, como nas primeiras vezes…
Quiçá tenha sido esse o problema: minha falta de coragem. Não me compete saber quem está certo, quem errou. O que me compete é mexer esse meu traseiro da cadeira e ir salvar meu casamento.
“O Cravo beijou a Rosa
Debaixo de uma sacada
O Cravo está alegre
E a rosa, tão encantada”
(Fonte)
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