sábado, 3 de março de 2012

Diálogo Silencioso

— O que te traz aqui, menina? — Perguntou o religioso.
— É o excesso, padre. — Confessou aos suspiros. O peito pesava de tal maneira que mal conseguia respirar. — Espero demais. Quer dizer, espero demais dos outros. — Explicou, antes que ele entendesse que era acomodada. — Faço muito e nada recebo em troca. Não que eu seja uma santa, ou perfeita. Só cansei de dar e não ganhar, padre. O vazio tá incomodando e…
— Isso é falta de Deus, minha filha. — Interrompeu com aquela voz monótona que só o vigário tinha.
— Também… — A jovem concordou meio hesitante, temerosa em seu tom de voz, receando afrontar a crença do clérigo. — Há tempos não vivo, se é que me entende. Nunca mais fui à praia e tirei os sapatos só para sentir a areia. Nunca mais fui ao cinema ver o filme do meu ator favorito. Nunca mais namorei, ou me permiti amar. Já me esqueci da última vez em que visitei os meus pais. Ou a última vez em que comi a torta de maçã de minha tia. Já não me lembro da última vez em que saí sem rumo pela tarde, só pra ver o sol se pôr. — Desabafou de uma vez, fechando os olhos para que tentasse recordar a sensação. Respirou fundo, mas nada. Havia esquecido. Ficou a olhar para o padre, a angústia gritante em seus olhos. Deu um sorriso amarelo ao ver a feição do vigário. Esperta que só, notou que não era a única a se sentir assim. Ficaram ali, então, ambos compartilhando do mesmo sentimento, porém mergulhando em lembranças únicas.

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