quinta-feira, 8 de março de 2012
(Des)Ensaio sobre a vida: Um desabafo que não merece ser lido.
Não é amor, nem as pessoas que te cercam. Tudo se resume a você. É um egoísmo tão implícito que é quase oculto. Você não percebe, nem eu. Então achamos que estamos vivendo. Afinal, ninguém quer namorar porque o amor é um sentimento lindo. Trata-se de ficar bem consigo mesmo; uma tentativa - às vezes - frustrante de preencher um vazio. Você se convence de que a sua vida é pior que a de qualquer um. O que ninguém sabe é que o seu vizinho também acha a vida dele a pior. E todo o mundo acha (ou já achou). Porque são mínimas coisas que te enlouquecem. E mais uma vez, ninguém percebe. Decidir a que Deus servir, a que religião seguir. qual roupa usar qual postura adquirir. Meros rótulos. É a tal da esquizofrenia social te tomando. É se limitar à opinião alheia e seguir minunciosamente os passos de sabe-se-lá-quem. Quando eu era menor e aprendi o ciclo da vida, me perguntei o porquê de entre "nascer, crescer, reproduzir e morrer" não estava também o "viver". Talvez seja porque realmente não exista. Todos sobrevivemos. Claro, sem nunca estarmos satisfeitos. Estamos fadados a buscar algo que nos preencha completamente. Porém todas essas palavras são vãs, afinal, só saberei o que é a vida quando a muita idade me alcançar (não é à toa que os mais velhos são os mais sábios). Já dizia Vinícius de Moraes: "O próprio viver é morrer(...)", e quando eu finalmente descobrir o tal sentido, terei de partir.
segunda-feira, 5 de março de 2012
Outono de Mim.
“O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa, despedaçada.”
Meu nome é Francisco.
Meu nome é Francisco, mas me chamam de Chico.
Sou casado há um ano, resido no estado do Rio de Janeiro, mas sou mineiro de nascença e estou no auge dos meus trinta anos; formado em Direito, trabalho na Prefeitura, onde entro às sete da manhã e saio às seis da tarde. Gosto de batatas e piano. Costumava tocar em concertos antes de conhecer Linda.
Linda é a minha atual esposa.
Ela tem os cabelos crespos e armados. Tem também os olhos escuros, já diria Vinicius, como besourinhos do céu. Tem a pele cor de chocolate, a minha mulata. Os lábios… Os lábios dela são como portais celestiais. É bonita a danada, mas tem um defeito: não me ama.
Conheci-a em uma situação engraçada. Estava eu entrando em um estabelecimento no qual havia marcado um encontro com a minha, na época, noiva, quando ouço ligeiramente uma discussão:
_ Minha senhora, eu não posso abater ainda mais o preço deste livro.
_ Senhora está no céu, minha filha… Na prateleira ‘tava falando dez reais, então é esse o preço que eu vou pagar nesse livro.
_ Deve ter havido algum engano, senhorita. Agradecemos o aviso, olharemos e consertaremos, mas não posso diminuir o preço.
_ Olha aqui…
_ Eu pago a diferença.
E foi com essa última frase que ganhei minha primeira bofetada no rosto e um tiro no coração.
Após o acontecimento, não havia visto mais a moça, apesar de persistir em ir todos os dias naquele café, mas lembrava-me de como os lábios dela se moviam… Lembrava perfeitamente, tão perfeitamente que, por vezes, praguejava a minha total falta de sanidade, a qual levou às ruínas o meu noivado e levou-me também a abrir uma investigação acerca da moça.
Depois de dois dias, soube que o nome dela era Linda da Silva, que morava na entrada de uma favela com os tios, trabalhava como cozinheira de uma creche, que tinha vinte e dois anos e o principal: era solteira. Sem mais esforços, descobri que freqüentava as rodas de samba da Mangueira. Perceba, caro leitor, eu, rapaz letrado, advogando, da mais alta classe da sociedade carioca, solteiro, e – por que não falar? – um dos jovens mais cobiçados atualmente, aprendeu todas as letras de samba que o mestre-alguma-coisa tocava… Eu aprendi samba, e ela aprendeu a me gostar.
Não fora muito dificultoso travar com Linda uma grande amizade. Logo na primeira semana, três tentativas frustradas de uma aproximação labial. No primeiro mês, garantiu-me um abraço nas vésperas de Natal. No ano novo, ganhei um beijo no rosto e um potinho com doces de amora e, enfim, no quinto mês, beijou-me os lábios e disse que me amava. Casamos três dias depois.
Olhar para o início do nosso casamento é o mesmo que recordar os sonhos mais remotos da adolescência. Lembro-me com intensidade cada detalhe, cada toque, cada sorriso, cada manha, cada discussão… O nosso amor, em sua fase inicial, levantou muita discussão sobre a tensão entre a emoção e a razão. E dessas discussões, surgiram mágoas, e dessas mágoas, perdi minha esposa e ganhei uma mulher amarga dentro de casa.
O amor está ligado ao dia-a-dia, às coisas simples e essenciais que fazem bem à existência humana e, em especial à relação a dois. Um beijo de boa noite, o inclinar-se no leito do amado enfermo, as refeições tomadas em conjunto, o orçamento compartilhado em meio aos sonhos para o futuro… Isso tudo pode traduzir o amor diário, e foi aí que pecamos: deixamos nos abater pela rotina. Nossa convivência ficou pacífica, polida, fadada ao fracasso e ao caos. Não éramos mais apaixonados, perdemos o encanto um para com o outro e isso doía-nos e ainda nos dói… Ouço todos os dias milhares de palpites acerca do meu casamento, aonde as pessoas me dizem que “um amor cura outro amor”, todavia não é isso que quero para mim, para nós.
Decepcionei minha esposa, desgastei os sentimentos da mulher que amo a ponto de deixá-la traumatizada e desacreditada no amor. Hoje ela duvida de mim, de todos e dela mesma, fecha-se em um casulo. Ela perdeu o entusiasmo na nossa caminhada e não está disposta a tolerá-la até o fim, mas não me permito deixar.
Amo-a. Amo a minha Linda. Amo minha esposa. Amo minha namorada e não vou desistir de nós.
A grande ilusão do meu casamento ocorreu quando, à beirada do final trágico, eu disse que estava tudo bem. Na verdade, eu sou um grande filho da puta, perdoe-me, leitores, mas é desse jeito que me vejo. Tantas coisas boas poderiam ter acontecido se eu tivesse aberto para a possibilidade do melhor, ou seja, para coisas necessárias que faziam falta. Eu precisava ter admitido que as coisas não estavam bem, e mais do que isso, deveria ter me disposto para fazer alguma coisa vital a fim de mudar a situação. Temos, todos nós, a tendência de minimizar os problemas dos outros e super-valorizar os nossos. Repito: filho da puta! Reclamei durante meses a falta que os lábios dela me faziam, mas nunca, até então, tinha parado pra pensar que ela também deveria sentir falta dos meus e que, se fosse menos egoísta, deveria ter ido beijá-la, e ainda que ela dissesse não, corteja-la, como nas primeiras vezes…
Quiçá tenha sido esse o problema: minha falta de coragem. Não me compete saber quem está certo, quem errou. O que me compete é mexer esse meu traseiro da cadeira e ir salvar meu casamento.
“O Cravo beijou a Rosa
Debaixo de uma sacada
O Cravo está alegre
E a rosa, tão encantada”
(Fonte)
domingo, 4 de março de 2012
Você acredita em destino?
Foi a pergunta que aquela senhora me fez. Confesso que eu estava meio (muito, na verdade) aborrecida com aquele falatório. Parecia que o metrô não se movia e que o ponto onde eu deveria sair estava cada vez mais longe. Ignorei, sem nem imaginar que a indagação fora feita a mim. Olhei para o lado e vi uma mulher nem jovem e nem velha, de pele morena clara. A cabeça estava coberta por um lenço estampado. Tentei imaginar a cor de seu cabelo, se tivesse algum. Tinha os olhos vidrados em mim, como quem esperava uma resposta. Engoli em seco e concordei sem graça, apenas balançando a cabeça. Era só o que ela precisava para relatar o motivo da pergunta. Disse-me que havia duas semanas que fora curada de câncer. Seu estado era crítico e os médicos não dava muito mais que alguns dias. Ficou arrasada, mas o que importava era ver o nascimento do neto. A filha engravidara na adolescência, e seria lastimável se a mãe morresse justo naquele momento. Àquela altura, os passageiros me olhavam como se eu fosse louca em dar ouvidos a baboseiras. Curiosa, não me importei com os olhares. – Pois acredita que eu vivi o suficiente para ver o meu menino nascer? Uma semana depois! – Exclamou, orgulhosa de si. Seu semblante contradizia o tom de voz. Parecia frustrada, além de tudo. Eu a ouvia atentamente, imaginando onde queria chegar. Eu já estava cheia dos problemas, e não precisava ouvir mais aqueles. Isso pensei, claro. Indelicadeza não é o meu forte. – Aí eu soube que tinha sido curada. Corri para a minha filha e meu neto, contar a boa nova. Tudo isso pra saber que havia tido complicações no parto e só havia sobrevivido o João Gabriel. – Falou naquele tom amargurado. Supus que aquele fosse o neto da senhora. Até olhei ao redor, só pra ter a certeza de que aquilo não era uma pegadinha. Se eu contasse, ninguém acreditaria. Pois ao olhar para o vagão, vi muitos como eu, meio sem reação. Um silêncio terrível, todos prestando a atenção naquela prosa. Quis me enfiar num buraco e praguejei por minha estação ser tão longe. – Eu também acredito em destino. Vivi por uma razão: cuidar do meu João. A vida de minha filha pela minha. – Balançou a cabeça e riu. Minha língua coçou e eu tive que intervir. – Mas isso não é destino. Chama-se propósito, e não do acaso. Acredito que exista um Deus… – E parei por ali mesmo, pois a atenção toda se voltara pra mim. A mulher me olhou do jeito “pedi sua opinião?”. Calou-se. Nem me revoltei. Pelo contrário, senti pena. O que faria uma senhora desabafar sua história para um bando de pessoas que nunca vira? Então lembrei que a solidão tira a pessoa do seu estado natural. O vagão parou e a mulher do metrô anunciou a minha estação. Saí o mais rápido que pude, sem sequer me despedir da mulher. Fui o percurso todo pensando. No final, aquela senhora e eu tínhamos algo em comum. Não, eu não tive câncer e meu drama não é um terço do que o daquela mulher. Mas no final das contas, ambas precisamos de mudança. O que necessitamos, é um sopro de vida.
sábado, 3 de março de 2012
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